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terça-feira, 31 de julho de 2012

À convera com...Isidoro Cunha.

O blogue vai dando os seus passos e continuando quase diáriamente a retratar sob este olhar forasteiro, aquilo que em Lanheses há para retratar e que se insira nos gostos do seu autor. Afinal de tudo, um blogue é isto mesmo, é uma página pessoal onde, o seu autor, sem falsos pudores escreve acerca daquilo que lhe é prazeirento, critica o que acha que deve criticar, aplaude o que acha que deva ser aplaudido, enquadrado, claro está, com o tema desta página pessoal. Aos olhos de todos já ninguém, que me conheça bem, questionará a tremenda paixão que tenho por esta aldeia e pelas suas gentes. Pela sua natureza envolvente, pelo vale onde se insere, pelo rio, pelas zonas verdes, enfim, por toda a sua bela componente geográfica e paisagística. No entanto, fui-me aos poucos apercebendo que há outros pontos eloquentes a serem explorados, nomeadamente as gentes desta aldeia e se criei no SSVSA uma página autónoma com o título de -"À conversa com..." foi com a intenção de que estas mesmas gentes participassem do blogue, caso assim o entendessem. Propositadamente, não quis ser eu a tomar a iniciativa de convidar alguém para que comigo conversasse um pouco, de modo a que depois, pudesse compor algumas linhas escritas acerca dessa conversa, neste espaço virtual. Preferi esperar se alguém tomava essa iniciativa (podem acusar-me de pretensiosismo) e há algum tempo atrás, recebi um convite que me deixou muito agradado e embevecido, para visitar uma moradia e terreno de um lanhesense. Afinal, tive a sensação de que o blogue está a evoluir para um patamar superior e com extrema satisfação, realizo que os lanhesenses (pelo menos alguns) dele querem participar. Tive essa sensação, aquando da minha participação nas tertúlias que a Junta tem organizado e muito recentemente nas festas da aldeia, onde numerosos foram os rostos de lanhesenses que me pediam uma fotografia, uma palavra sobre este blogue, sobre Lanheses. 

Acedendo ao muito simpático convite do Sr. Isidoro Cunha (Doro, como é mais conhecido) num destes dias passados, lá fui com a J5 até à sua propriedade para conversar um pouco com ele, num final de tarde enevoado por nuvens altas, anunciando uma trovoada premente, mas que se revelou delicioso.
Após um breve chamada telefónica, o Sr. Doro, lá me esperava e com a simpatia que lhe é característica, me abriu os portões do seu espaço habitacional, entrando então a J5, para lá ficar por algumas horas estacionadinha, apreciando o belo da verdejante paisagem que este senhor tem no seu terreno.

- Muito boa tarde Sr. Sérgio, entre, entre.
- Muito boa tarde e com licença.

Os cumprimentos tinham sido trocados de modo informal e logo ali o deixei à vontade para não me tratar por senhor, porque segundo dizem e até agora não vi nada, o senhor está no céu e mais a mais, um homem, como o Sr. Doro, com idade para ser meu pai (curioso ter a precisa idade do meu) não tem nada que tratar um "rapazinho" como eu (à sua beira) pelo epíteto de senhor, devem, a educação e o respeito, que seja eu a tratá-lo a ele por senhor, somente.

Criadas as bases para uma boa confiança e os alicerces para que se iniciasse a conversa, lá se começou o périplo pela propriedade do Sr. Doro, que há muito me tinha dito que visitasse o seu espaço, pois teria certamente coisas, que uma pessoa que gosta da natureza e do ambientalismo, como eu, iria gostar de ver.

Começamos então pela componente energética e qual não é o meu espanto ao reparar que o Sr. Doro tem em sua casa um conjunto de painéis e acessórios que a tornam energéticamente independente e pode até, como o faz e muito bem, vender energia às concessionárias que detêm patente para isso. Fenomenal! Desde um vasto leque de painéis fotovoltaicos até aos termodinâmicos, nesta propriedade respira-se ambientalismo e energia, e apesar do volume monetário que é necessário despender para ter o conjunto energético que este senhor tem em sua casa, é uma lição para todos nós que por vezes gastamos dinheiro em futilidades e se, antes, o puséssemos de lado, um dia poderíamos investir nestes materiais e até, vir com eles a ganhar dinheiro. Excelente! Digo!
Aqueles telhados verdes já por muitas vezes me tinham chamado a atenção e agora in loco tinha a certeza de que aqui se respira ambientalismo!

Gostei em particular de uma frase que o Sr. Doro proferiu, enquadrado com o que acabei de escrever:

- Eu sempre tive ideias e andei sempre muito à frente, enquanto muitos se riam de mim por andar sempre a magicar, eu pensava, deixa rir, que daqui a uns anos eu estou a tirar dividendos das minhas ideias e depois rio-me eu por último!

E está! Enquanto todos gastamos pipas de massa com as facturas energéticas, este senhor com os seus aforros, investiu em algo que agora lhe permite retirar daí, preciosos dividendos! Quem não desejava saber que está a dormir por baixo de um telhado, que no final de cada mês lhe atribuirá uma renda? Eu, confesso, adoraria; ainda mais satisfeito e descansado dormiria!


Conjunto de painéis fotovoltaicos.


Conjunto termodinâmico.

Sala das máquinas, o coração, deste pequeno tesouro instalado numa moradia em Lanheses.


Nestas imagens se mostra todo o potencial que o Sr. Doro tem instalado em casa, e que lhe fornecem a energia eléctrica necessária para ter luz na mesma, lhe aquece as paredes e as águas, para além de ter a mais valia de ainda retirar dividendos deste amplo material instalado. Chamo a isto de - Inteligência!

Foi então tempo de nos passearmos pela área da sua propriedade e aí novo espanto! O Sr. Doro, tem um jardim de proporções dantescas, muitíssimo bem cuidado por ele e pela sua esposa (somente), onde abundam as mais variadas espécies de flores e de árvores...para mim então, um apreciador desta espécie vegetal, um maná, diga-se. Os meus olhos ficaram maravilhados! Em cada canteiro muito bem arranjadinho ocorre um carvalho ancestral, um azevinho, freixos, uma oliveira, árvores de fruto várias, tomateiros, pereiras, macieiras, e uma rede de rega abrangente e ampla, de sistema quase artesanal de que falarei mais adiante. Para não falar do colossal eucalipto que num canteiro no centro do terreno ocorre imponente, espécie esta por vezes tão criticada!

O Sr. Doro, logo aí referiu: - Ninguém gosta deles (Eucaliptos), mas eu gosto e até acho que fica ali muito bem, não vou arrancá-lo só por beber muita água...

Confesso que por vários motivos não é das minhas (particulares) favoritas, mas neste caso que resulta muito bem, lá isso resulta! Para não falar nos numerosos enxertos que o Sr. Doro, faz nas suas árvores e na transplantação de outras tantas, que como ele diz:

- Me custa saber que vão morrer, por isso as planto de novo, noutras áreas do jardim, ou ofereço a quem queira para plantar no seu.

Às páginas tantas eu já andava perdido no meio daquela maravilha natural, disparando sem cessar o obturador da FUJI, por vezes sem saber para onde me virar com tamanha riqueza ao qual o Sr. Doro ia respondendo com um lacónico: - ainda falta o melhor...

- Ah...os nenúfares de que me tinha falado...
- Calma, sim são nenúfares, mas ainda vem aí o melhor... 

Um canteiro muito harmonioso, onde nem um pequeno lago, povoado de pequenos peixes, falta.











O cuidado posto em cada canteiro, pelo Sr. Doro e pela esposa D.ª Rosa.






Mais um canteiro fenomenal...


 Uma cabana, para as horas de sossego...talvez...



O cilindro betonado que se vê ao fundo na imagem anterior, é o que serve todo o jardim para o sistema de rega. Uma ideia do Sr. Doro que funciona e dá pressão a todas as mangueiras do sistema de rega, utilizando a força da gravidade. Passo a explicar, a água armazenada no seu interior e aproveitando o seu peso, é que vai dar pressão, aquando da saída da mesma, nas várias torneiras dispostas ao longo deste maravilhoso jardim. Quando atinge um certo nível de esvaziamento, um motor, enche o cilindro de novo para que seja reposto o seu caudal original e nunca falte pressão à mesma. Digam lá se não é de todo engenhoso! Para nem comentar a tremenda riqueza vegetal que se vê na fotografia e o cuidado pictórico dado a todos estes lindos canteiros! Belo...e com tremendo bom gosto!















Um dos abrigos rústicos onde o Sr. Doro abriga um poço e que utiliza também para estufa...


Cabaças a crescer...


Imponente Carvalho com canteiro a condizer...


E eu que pensava que em Lanheses já não encontraria Sobreiros! Encontrei este, aqui...fenomenal!


Jovem Castanheiro e fecundo, já com ouriços que darão saborosas castanhas.








Fruncho!

Meia volta dada e rodando por entre os muitos e belos canteiros, o Sr. Doro conduziu-me então para mais um local do jardim a ser visitado e foi aqui que os meus olhos ficaram maravilhados ao ver que ali, diante dos mesmos, um gigantesco lago artificial, por ele criado, onde não faltam os nenúfares e um grandioso cardume de belas carpas, ocorre magnífico, neste já de si magnífico, jardim! Atravessando o passadiço em madeira colocado estratégicamente por cima da água do lago, chegamos a uma cabana toda ela revestida por colmo e no seu interior, se encontra um banquinho branco de esplanada, onde o Sr. Doro costuma levar os netos e com eles apreciar este ou aquele petisco. Um cantinho deveras romântico e muito aprazível! Fiquei petrificado com a beleza que ali, um homem, foi construindo aos poucos, com tamanho engenho e tanta arte!









O Sr. Doro, no passadiço construído por si.


Que lindos nenúfares!

O criador orgulhoso, junto da sua obra!





Impressionante que ao chamamento do dono, as carpas vinham à tona da água!



Simplesmente belo...





Mais um imponente carvalho e canteiro a condizer.





O imponente eucalipto, no meio do jardim!



Neste jardim abundam os azevinhos.







Que bom aspecto...


Canteiro onde ocorre um Freixo.






Mais um abrigo, que encerra em si um poço, onde no seu centro se colocou uma roda e podem correr os petiscos, empurrados pelos convivas, que se podem sentar nos bancos em madeira colocados no perímetro de todo o abrigo e onde certamente, se passarão horas muito agradáveis!



Magnífica "avenida" povoada de palmeiras.


Estava a visita quase feita e após me ter sido mostrado todo o interior da bela moradia do Sr. Doro, pelo mesmo, decorada como muito bom gosto, onde abundam os temas relacionados com os seus gostos pessoais, mas que propositadamente não quis fotografar, porque este espaço virtual não pretende retratar a mais profunda privacidade de cada um, apenas temas relacionados com a  rusticidade e naturalidade dos locais e pessoas visitadas; chegou o tempo de a minha pessoa ser brindada com um magnífico Champagne Français e conduzida pelo Sr. Doro, para a borda da piscina situada ao lado da moradia e ali, na beirada da mesma, sentados em duas espreguiçadeiras, tal e qual dois adolescentes que falam sobre as mais variadas matérias, a conversa foi fluindo muito naturalmente.

Foi então aí que o Sr. Doro me abriu as portas da sua vida e com os seus olhos verdes e brilhantes me foi contando como muito novo deixou Lanheses, com 15 anos, para trabalhar no duro em França, subindo na vida a pulso! Confesso que a sua história me fez lembrar a história no livro de Júlio Magalhães, que trata a nossa emigração e os nossos emigrantes "Longe do meu coração". Chegou lá, a terras de França, como moço de recados, porque só depois dos 16 anos teria autorização para trabalhar; passou então, após ter atingido a idade, a auxiliar de servente, servente, 1º servente, oficial, chefe, chefe de equipa e por aí em diante até conseguir um dia criar a sua própria empresa e mais tarde uma imobiliária. Eu, como bom ouvinte, fui deixando o Sr. Doro falar e nem ousei fazer as perguntas que tinha preparado, antes pelo contrário, fiquei logo ali embevecido pela história de vida deste lanhesense, e pela forma como se abriu comigo, um rapazinho à sua beira...que na cidade onde viveu durante muitos anos chegou a ser agraciado com o título de benemérito, pelo bem e trabalho praticado em prol daquela comunidade. Falou-me da sua paixão pelo ténis e como ajudou a criar e desenvolver o clube local, onde se chegou a efectuar um torneio com o seu nome, pelos feitos que prestou em prol da modalidade e do clube e quando demos por ela, estávamos, após vários brindes com aquele espumoso champagne, a conversar sobre o gosto comum a ambos pelas viagens e descobertas de sítios novos, entre eles um muito querido aos dois, as quentes e azuis caraíbas!

À minha pergunta sobre se foi propositado o seu regresso a Lanheses? Respondeu!

- Claro. Toatalmente, amo esta minha terra e aqui quero ficar! Mantenho contacto quase diário com França e com os amigos que tenho lá, mas é aqui que quero ficar. Volta e meia recebo amigos meus aqui em casa, onde mato saudades e ponho a conversa em dia...

Para o final, juntou-se a nós a D.ª Rosa, sua esposa que também falou no seu gosto por viajar e nas aventuras e desventuras desta vida ao lado do seu marido. Quando o relógio marcava quase nove horas da noite, a garrafa de champagne estava no fim e a hora de jantar já tinha passado, terminamos então a conversa, com a promessa de nos encontrarmos de novo e disputar umas "raquetadas de ténis" do qual nada percebo nem nunca pratiquei.

- Ok, ok, não me vou importar em ser humilhado pelo Sr. Doro, um perito em ténis. 

E de nos vermos com mais frequência para a conversa ser posta em dia, porque muito ainda há para conversarmos, sem que contudo, o Sr. Doro, me fizesse novo convite, em visitá-lo novamente na sua propriedade, sempre que quisesse! Anuí, mas agora será a vez dele em vir a minha casa beber uma garrafosa, conversar e passar momentos agradáveis, como aqueles que passei na sua!







Fiquei fascinado pela história de vida deste homem inteligente, criativo e extremamente obreiro, pela sua simpatia e pelo tremendo amor a que se entrega nas coisas que faz! E deveras boquiaberto com o imenso tesouro que em Lanheses conseguiu criar, esta sua fenomenal propriedade!

Ao amigo Doro (perdoe-me a confiança em não tratá-lo por Sr. agora, mas terei muito orgulho em tê-lo no meu leque de amigos pessoais) e à esposa, Dª Rosa, o meu muito obrigado público por me abrirem as portas da sua propriedade e as portas do interior das suas almas!



Muito, muito obrigado! E não se esqueça (o amigo Doro vai perceber este recado)...o senhor, segundo dizem, está no céu...